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Valor econômico de polinizadores é de R$ 43 bilhões no país

Polinizadores como abelhas, borboletas, aves e morcegos prestam um serviço de manutenção e aumento de produtividade das lavouras que foi mensurado por estudo realizado por 12 pesquisadores

Redação* para COALIZÃO VERDE (1 Papo Reto, CenárioAgro, Neo Mondo e The Greenest Post)

A diminuição das populações de insetos como abelhas, vespas e borboletas, além de aves e morcegos, pode levar a perdas econômicas. Isso porque, de acordo com resultado de estudo lançado na semana passada (06), na sede da Fapesp em São Paulo, o serviço que esses animais prestam para as lavouras agrícolas chegou a R$ 43 bilhões no Brasil em 2018.

O “Relatório Temático sobre Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos no Brasil“, apresentado pela Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES) e pela Rede Brasileira de Interações Planta-Polinizador (REBIPP), reuniu, durante um ano e meio, 12 pesquisadores de todo o País para preparar o diagnóstico que envolveu a revisão de mais de 400 publicações e, posteriormente, foi submetido à revisão externa acurada de outros 11 especialistas da área, incluindo gestores ambientais e tomadores de decisão, além de professores universitários e pesquisadores.

De acordo com o relatório, a polinização contribui para a variabilidade genética de plantas, fornece frutos, sementes, mel e derivados, além de envolver um conjunto de conhecimentos tradicionais. Por isso, é considerada um serviço ecossistêmico, ou seja, um benefício decorrente da integridade da natureza para sustentar a vida no planeta, assim como a água, a regulação do clima, ar limpo, etc. E com grande contribuição para a produção de alimentos, ou seja, para a nossa segurança alimentar, e a economia, garantindo renda aos agricultores e comida mais farta e mais barata à população.

Dos R$ 43 bilhões gerados no ano passado ao País, 80% desse valor dizem respeito a apenas quatro culturas – soja, café, citros e maçã. Para chegar a este valor, os pesquisadores da REBIPP calcularam o produto da taxa de dependência de polinização pela produção anual considerando 67 cultivos. A soja responde por 60% deste valor, seguido pelo café (12%), laranja (5%) e maçã (4%).

Delfim Martins/Pulsar

Pomar de laranja em Conchal/SP. Foto: Delfim Martins/Pulsar Imagens

Das 191 culturas agrícolas utilizadas para a produção de alimentos no País que se tem conhecimento sobre o processo de polinização, 114 (60%) são visitadas por polinizadores. O diagnóstico analisou ainda o grau de dependência dos polinizadores para 91 cultivos agrícolas e constatou que, para 76% (69), a ação desses animais aumenta a quantidade e/ou a qualidade da produção agrícola.

O relatório segue os moldes do diagnóstico global de polinização, lançado em 2016, pela Plataforma Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) da ONU. O diagnóstico global foi acatado pelos países membros da Convenção da Diversidade Biológica e deu origem à Coalizão de Polinizadores, uma iniciativa formada por países que apoiam os programas de proteção e uso sustentável dos polinizadores nas políticas públicas e do qual o Brasil ainda não é signatário. “O documento brasileiro foi estruturado de modo a subsidiar futuros programas de integração entre os vários setores da sociedade civil e esperamos que o Estado se sensibilize com esta questão” afirma Vera Imperatriz, da Universidade de São Paulo, que coordenou o diagnóstico global da IPBES.

Para o Prof. Carlos Joly, da Universidade Estadual de Campinas e coordenador da BPBES e do Programa Biota/Fapesp, a ocasião para o lançamento do relatório é oportuna, já que coincide com a discussão da regulamentação e liberação de novos agrotóxicos. “Os polinizadores são de vital importância não só para nossas exportações como para produção de alimentos essenciais para a qualidade de vida dos brasileiros”, diz. “O País deve avaliar com muita cautela a utilização de substâncias que colocam em risco o enorme benefício que estes animais nos trazem”, alerta o professor.

De acordo com os pesquisadores que participaram do estudo, o serviço ecossistêmico de polinização é ameaçado por diversos fatores, destacados pelo documento: como uso indiscriminado de agrotóxicos, perda de habitat, mudanças climáticas, poluição ambiental, espécies invasoras, doenças e patógenos.

Abelhas

Cristina Rappa

Beija-flor-de-fronte-violeta: polinizador

 A lista de visitantes das culturas agrícolas supera 600 animais, dos quais, no mínimo, 250 apresentam potencial de polinizador. As abelhas destacam-se como polinizadores, representando 66% das espécies. Besouros, borboletas, percevejos, mamangavas, mariposas, aves, vespas, moscas e morcegos enriquecem a extensa lista de benfeitores ao meio ambiente e à agricultura.

As abelhas predominam, participando da polinização de 91 (80%) das 114 culturas agrícolas que dependem da visita de polinizadores e são responsáveis pela polinização exclusiva de 74 (65%) delas. 

Algumas plantas cultivadas ou silvestres dependem, contudo, exclusivamente ou primordialmente de outros animais para a realização desse serviço, como é o caso da polinização de flores de bacuri (Platonia insignis) por aves. Outros exemplos são da polinização de flores de pinha (Annona squamosa) e araticum (Annona montana) por besouros, de flores de mangaba (Hancornia speciosa) por mariposas, e de flores de cacau (Theobroma cacao) por moscas, mostra o estudo.

De acordo com a conclusão do relatório, a diversidade de polinizadores é fundamental para a efetividade da polinização. E a manutenção do ambiente natural próximo à lavoura ainda é a principal forma de garantir essa diversidade, na medida em que supre a oferta de recursos e abrigo durante o ano.

Cristina Rappa

Mamangava: diversidade positiva

O relatório aponta o manejo de polinizadores nativos como uma oportunidade ainda pouco explorada. O País possui uma grande diversidade de espécies de abelhas sem ferrão que, além de produzirem méis de qualidade e de alto valor agregado, provêm a polinização de diversos cultivos agrícolas. Segundo o relatório, apenas 16 espécies são manejadas, o que significa que temos muito a aprender, nessa seara, com as práticas de manejo associadas ao conhecimento local e indígena.

 

*com informações da Agência Fapesp e da Associação Brasileira de Estudos das Abelhas – A.B.E.L.H.A.