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Tecnologia viabiliza exportação da manga brasileira para a África do Sul

Luan Dias

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Método, desenvolvido pela Embrapa, consiste em mergulhar as frutas em água aquecida, sem uso de químicos. 25 toneladas da fruta foram exportadas com esse método hidrotérmico

Redação*

Fernanda BiroloO Brasil comemora o primeiro lote de 25 toneladas de mangas embarcado, no final do ano passado, para a África do Sul, após cinco anos de negociações. A concretização da venda só foi possível graças ao tratamento hidrotérmico de frutas, uma tecnologia desenvolvida por uma rede de pesquisa liderada pela Embrapa há mais de duas décadas.

Isso porque diversos mercados importadores de frutas, como é o caso da África do Sul, não aceitam a aplicação de produtos químicos para o controle da mosca-das-frutas (Ceratitis capitata), uma das maiores ameaças à fruticultura mundial. Durante muito tempo, o Brasil só usava o controle químico para combater a praga, prática que fechou as portas de vários mercados internacionais que adotam barreiras fitossanitárias exigentes. 

Desenvolvida no início da década de 1990, a técnica brasileira de hidrotermia foi uma adaptação de um tratamento de frutas utilizado em outros países, como o México, e consiste em mergulhar frutas de até 425 gramas em água aquecida a 46ºC por 75 minutos e frutas entre 426g e 650g, por 90 minutos. O processo mata ovos ou larvas do inseto que estejam presentes. Os cientistas brasileiros desenvolveram parâmetros para as condições nacionais e para o combate à mosca-das-frutas, já que à época a técnica só era utilizada para outras pragas.

Além do tratamento hidrotérmico, foi indicado o monitoramento das populações da mosca no campo, com a instalação de iscas no pomar e outras técnicas de manejo integrado de pragas (MIP). O sucesso da solução levou a um novo modelo brasileiro de certificado fitossanitário, o que abriu à fruticultura nacional os mercados da Coreia do Sul, Japão, Chile, Argentina, Estados Unidos, União Europeia e, recentemente, da África do Sul.

Mercados exigentes

Em 2017, o Brasil exportou 179,6 mil toneladas de manga, que renderam ao País US$ 205 milhões, sendo os maiores destinos os Países Baixos, especialmente a Holanda, com 83 mil t, os Estados Unidos (32,8 mil t) e a Espanha (20,2 mil t). A região do Vale do São Francisco é a maior exportadora da fruta, respondendo por 90% do volume comercializado ao exterior.

Luan Dias

Técnica é solução para entrada em mercados exigentes

O diretor-executivo da Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), o engenheiro-agrônomo José Eduardo Brandão Costa, ratifica, em nota, a importância do tratamento: “Ele foi a solução encontrada pelo setor para entrar em mercados exigentes como o americano. O maior receio deles era que, nos oito a dez dias de transporte até lá, houvesse a possibilidade de que os frutos levassem os ovos ou as larvas da mosca”, relata.

Segundo Brandão, “o mercado da África do Sul tem muito potencial, porém ainda é cedo para falarmos em volume anual de exportação. Até o momento são quatro empresas credenciadas e a Abrafrutas está trabalhando para aumentar esse número”. 

A pesquisa

A rede de pesquisa responsável pelo desenvolvimento da técnica é composta por especialistas da Embrapa, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB/USP)  e da biofábrica Moscamed Brasil, com a supervisão do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) e o apoio da Associação dos Produtores e Exportadores de Hortifrutigranjeiros e Derivados do Vale do São Francisco (Valexport).

Desenvolvido em conformidade com o acordo bilateral nos campos sanitário e fitossanitário entre o Brasil, por meio do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e os Estados Unidos, representado pelo Departamento de Agricultura daquele país, o USDA, o trabalho resultou na tese de doutorado do pesquisador da Embrapa Mandioca e Fruticultura(BA) Antonio Souza do Nascimento, intitulada “Aspectos bioecológicos e tratamento pós-colheita de moscas-das-frutas em manga”, pela Universidade São Paulo (USP). Levando em consideração as etapas de geração e transferência entre os anos de 1987 e 2003, o investimento total na tecnologia foi estimado pela Embrapa em R$ 2,4 milhões.

A pesquisa definiu a combinação de duas técnicas no controle das moscas-das-frutas: o monitoramento populacional e o tratamento hidrotérmico. No campo, o monitoramento das moscas-das-frutas antes da colheita determina o nível populacional de insetos existentes nos pomares. Se necessário, deve-se utilizar o controle cultural (medidas que podem afetar a disponibilidade de alimento ao inseto e reduzir a incidência da praga) e a aplicação de iscas atrativas com produtos orgânicos. “O ideal é que a manga chegue no packing house com o mínimo de infestação da praga, seja em forma de ovos ou de larvas”, explica Antonio Nascimento.

*com informações da Embrapa.

Foto do embarque das mangas: Fernanda Birolo; foto de pesquisador da Embrapa com as mangas: Luan Dias.