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Produzir e preservar é possível

Por Renato de Aragão Ribeiro Rodrigues (*1) , Maurício Antônio Lopes (*1) e Paulo Renato Herrmann (*2), exclusivo para Coalizão Verde (1 Papo Reto, CenárioAgro e NeoMondo)

Gabriel Faria/Embrapa

Alguns dos principais desafios ambientais enfrentados pelo Brasil para a produção agropecuária em larga escala estavam, inicialmente, na presença de solos não aptos para produção na região do cinturão tropical do globo. Os solos tropicais são predominantemente ácidos, ricos em alumínio tóxico e muito pobres em nutrientes essenciais, como o fósforo. Além disso, o Brasil é considerado um país megadiverso, com imensa base de recursos naturais que precisa ser utilizada e manejada de forma sustentável.

Com todos esses desafios, antes da década de 1970, parecia impossível sonhar com segurança alimentar no Brasil. O Brasil não conseguia manejar seus recursos naturais e a produção e a produtividade da nossa agricultura eram muito baixas. A produção estava concentrada nas regiões Sul e Sudeste ─ fato agravado pelo tamanho continental e pela deficiência em logística. Havia constantes crises de abastecimento, elevadíssimos índices de pobreza rural e praticamente não havia conhecimento disponível sobre agricultura tropical nem políticas públicas adequadas. O resultado era um país conhecido apenas como produtor de café e açúcar. Mesmo com o nosso gigantesco território, éramos importadores de alimentos, veja só.

Apesar das condições adversas e desses desafios, o Brasil, por meio da Embrapa, das Universidades, das instituições de ciência e tecnologia e de um pujante setor privado, desenvolveu uma agricultura tropical avançada, baseada em ciência. Tudo isso apoiado em três grandes avanços:  a nossa capacidade de transformar solos ácidos em solos férteis, de tropicalizar a produção (culturas agrícolas e animais) e de desenvolver uma inédita plataforma de práticas sustentáveis.

Assim a agropecuária brasileira conseguiu provar que Thomas Malthus estava errado! O famoso economista britânico previu, no início do século XIX, o crescimento da população em progressão geométrica, enquanto os meios de subsistência ─ como a produção de alimentos ─ cresceriam em progressão aritmética. Com essa diferença entre os ritmos de crescimento, em algum momento da história, não haveria uma forma de produzir alimentos suficientes para a população. Portanto, quando Malthus assumiu esses conceitos, ele subestimou a capacidade científica e tecnológica do homem e o que elas poderiam fazer para aumentar a produção e a produtividade dos principais produtos agrícolas e pecuários.

Durante muito tempo a previsão de Malthus se mostrou acertada. Parecia que o aumento da produção de alimentos só seria possível pela abertura de novas áreas. No início do século XX, entretanto, o uso dos fertilizantes revolucionou a agricultura e possibilitou o aumento da produtividade. Passamos, então, a produzir mais alimentos na mesma área.

Após algumas décadas, outras técnicas importantes, como o melhoramento genético de plantas e animais, a mecanização da produção, a introdução de novas tecnologias de plantio, irrigação, colheita e a produção em escala otimizaram a produção e se juntaram ao uso intensivo de produtos químicos (fertilizantes e defensivos) e, na segunda metade do século XX, o mundo conheceu a Revolução Verde, liderada pelo agrônomo americano Norman Borlaug, condecorado com o Prêmio Novel da Paz pelo feito.

Apesar desses avanços terem sido extremamente benéficos, uma nova agenda emergia. Em 1972, a Organização das Nações Unidas realizou a Conferência de Estocolmo, que foi a primeira tentativa de repensar a relação do homem com o meio ambiente, assim como os meios de produção. Nascia a busca pelo equilíbrio entre o desenvolvimento econômico e a conservação da natureza ─ na época, o maior desafio se concentrava no controle da poluição atmosférica.

Desdobramentos ocorreram nos anos seguintes, como o Relatório Brundtland, de 1972, com a primeira definição de Desenvolvimento Sustentável – “o desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades”. Tivemos a Rio 92 ─ quando foi elaborada a Carta da Terra, e em seguida nasceram as Convenções de Biodiversidade, Desertificação e Mudança do Clima, assim como a Agenda 21 e outras plataformas importantes ─, a Rio+10, a Rio+20, dentre outras. Em 2015 a ONU liderou a formulação da Agenda 2030, que viabilizou um plano de ação para as pessoas, o planeta e a prosperidade, que busca fortalecer a paz universal, além do Acordo de Paris, um tratado global para redução das emissões de gases de efeito estufa a partir de 2020.

Após séculos de desenvolvimento de ciência e décadas de negociação internacional, é possível traçar um paralelo com o conceito de gestão de Marshal Goldsmith: “o que nos trouxe até aqui não será o que nos levará adiante”. Temos um imenso conhecimento acumulado que nos permite afirmar que o modelo econômico dominante no mundo atual não é mais adequado para o futuro.

A boa notícia é que podemos mudar o futuro da produção de alimentos. O Brasil lidera nesse momento um grande esforço de geração e uso de tecnologias poupa-recursos, de baixa emissão de carbono, capaz de promover a expansão sustentável da produção agrícola. A integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) é o melhor exemplo de um sistema de produção que permite, de fato, tratar a sustentabilidade como negócio, aumentando a produção e a produtividade, agregando valor e fortalecendo a imagem do agronegócio.

Gabriel Faria

O sistema ILPF otimiza o uso da terra e eleva a produtividade

A ILPF é uma estratégia de produção que integra diferentes sistemas produtivos, agrícolas, pecuários e florestais dentro de uma mesma área. Pode ser feita em cultivo consorciado, em sucessão ou em rotação, de forma que haja benefício mútuo para todas as atividades. Esta forma de sistema integrado busca otimizar o uso da terra, elevando os patamares de produtividade, diversificando a produção e gerando produtos de qualidade. Com isso, reduz a pressão sobre a abertura de novas áreas, além de proporcionar diversos outros benefícios ambientais (no solo, na água, nos animais e na atmosfera), econômicos (aumento e diversificação da produção, maior estabilidade e menor risco ao produtor e maior eficiência no uso de recursos) e sociais (geração de empregos, redução da sazonalidade do uso da mão de obra e qualificação de pessoal).

Nenhum outro país do mundo, nem mesmo os grandes players do agronegócio, possui as mesmas condições que o Brasil para avançar na produção sustentável de alimentos na próxima década! Contamos com uma estrutura de ciência e inovação que produziu em curto prazo uma revolução inédita no campo, além de produtores rurais criativos, ousados e aptos a empreender e inovar. Temos uma imensa e riquíssima área preservada, dividida em biomas de grande diversidade e potencial, como Amazônia, Cerrado, Pantanal, Mata Atlântica, Caatinga e Pampa.

O Brasil provou que produzir e preservar é possível. Podemos chegar a 2030 como o maior produtor mundial de alimentos e ao mesmo tempo ser o país com maior área preservada do planeta. Para isso, precisamos valorizar nossa produção, melhorar a imagem do país no cenário internacional e investir mais na diversificação dos nossos sistemas produtivos, no fortalecimento das nossas cadeias de valor, na viabilização de estratégias de pagamento por serviços ambientais e na formação profissional.

Cometemos erros e acertos no passado. Existem, aproximadamente 50 milhões de hectares de pastagens degradadas no Brasil hoje, mas contamos com tecnologia e conhecimento para tornar essa área produtiva e, assim, multiplicar a produção de alimentos, fibra e energia sem necessidade de derrubar uma única árvore.

*1  pesquisadores da Embrapa

*2 vice-presidente para a América Latina da John Deere

Fotos: Gabriel Faria/Divulgação