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Preço baixo é fator de escolha no consumo de alimentos

De acordo com pesquisa da Fiesp, mesmo diante de um cenário de crise econômica e valorização de produtos mais baratos, marca continua sendo importante quando se fala em cesta básica

Para saber o que há na mesa dos brasileiros e entender o que tem influenciado suas escolhas, o Departamento do Agronegócio (Deagro), da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), divulgou nesta quarta-feira (23) os resultados da pesquisa “A Mesa dos Brasileiros: transformações, confirmações e contradições”. O estudo, que ouviu 3 mil entrevistados em 12 regiões metropolitanas do Brasil, é uma atualização da “Food Trends”, realizada em 2010. “Ao contrário de 2010, em que o PIB teve um aumento de 7,5%, o cenário da pesquisa hoje (concentrada em outubro de 2017) é marcado pelos reflexos da intensa crise econômica que atingiu o País, principalmente em 2015 e 2016, em que os índices do PIB atingiram patamares negativos (-3,5%)”, disse Antônio Carlos Costa, gerente do Deagro. “Nos últimos anos, o preço baixo ganhou importância no processo de compra dos alimentos e hoje é considerado um dos principais drivers de escolha da categoria”, completou.

De acordo com Costa, isso foi determinante no processo de racionalização do consumo. O estudo apontou que sete em cada dez entrevistados (70%) admitem ter mudado pelo menos algum dos seus hábitos de compra e consumo de alimentos em função da crise. “E essa mudança parece ter consequências duradouras porque 63% afirmaram que pretendem manter parte dos novos hábitos adotados durante este período econômico difícil”, disse.

A busca por melhores oportunidades de compra e o preparo de refeições em casa (74%) foram ações que se destacaram para minimizar os efeitos dessa crise. Outro aspecto abordado foi o número de pessoas que disse não ter tempo para cozinhar, que passou de 46% para 38% e também a preferência ou a disposição de desembolso por produtos semi prontos (de 42% para 28%). O estudo também mostra que a busca por alimentos com desconto ou na promoção se intensificou, passando de 43% para 50%, entre 2010 e 2017.

Informação

Segundo a pesquisa da Coedagro, em sete anos houve uma inversão a respeito da importância da TV e da internet como fontes de informação sobre alimentação e saúde. Em 2010, 40% dos entrevistados apontavam a TV como principal fonte de informação. Hoje esse índice é da internet, que no primeiro estudo detinha 19% da amostra.

“Para se ter uma ideia do poder da internet quando se fala em alimentação, aqui no Brasil, este setor é a maior vítima de fake news no Brasil. Aqui, os influenciadores entram com muita força e o que postam têm um poder de viralização impressionante”, disse Renato Dolci, especialista em Data Science e transformação digital. “Não faz tanto tempo, a Bela Gil disse que escovava os dentes com cúrcuma. No dia seguinte, a pesquisa com o termo foi de 5 milhões”, exemplificou.

Ainda de acordo com o estudo, o percentual de brasileiros que se considera muito bem informado sobre a importância dos alimentos para a saúde passou de 15% para 21%. O nível de conhecimento de alguns termos relacionados à alimentação aumentou, como por exemplo, orgânicos (de 40% para 60%), sustentabilidade (de 27% para 48%) e emissões de carbono (de 21% para 35%).

Marca

“A marca atesta segurança, qualidade, reputação, dá aval a determinado produto; agrega a algo que é funcional. Ela tem também um significado emocional muito importante. As pessoas precisam preencher suas carências emocionais. Em momentos de crise, a marca contrapõe esta fase difícil a momentos pequenos, mas de alegria, de compensação”, disse José Eustachio, presidente do Conselho de Administração da Talent Marcel, para explicar outro dado apontado pela pesquisa.

O estudo apontou que mesmo diante de um cenário de crise econômica e valorização do preço baixo, a marca continua sendo o principal fator de compra de alimentos. Isso se observou, principalmente, para os alimentos mais básicos, como arroz (de 44% para 57%); feijão (de 36% para 54%); café (de 32% para 48%) e leite (de 24% para 35%). Mostrou também que 71% diz não se importar de pagar mais pelas marcas em que confiam, antes o índice foi de 66%. “Essa fidelidade à marca em alimentos básicos é uma característica global. São produtos que vão estar todos os dias na mesa e, por isso, não se pode errar”, disse Ricardo Fernandez, presidente para América Latina da General Mills.

“O que era muito importante, continua sendo mesmo num cenário econômico diferente”, conclui Antônio Carlos Costa.

Contradições

A terceira parte da pesquisa aponta que oito em cada dez brasileiros afirmam se esforçar para ter uma alimentação saudável e que “preço” (34%) e “falta de tempo” (21%) são considerados os principais desafios para se alimentar corretamente. Mostra ainda que a percepção que predomina é que se alimentar de maneira saudável custa muito caro (82%).

O estudo trouxe que 2/3 dos brasileiros consideram a aparência uma grande preocupação, porém apontou que sete em cada dez admitem não realizar nenhum tipo de atividade física com regularidade. “O brasileiro sabe o que precisa ser feito para ter uma alimentação saudável, para melhorar sua saúde e forma física, mas em contradição, direciona esta ação para redução do consumo de determinado ingrediente, como glúten, lactose, carboidrato, o que mostra o efeito dos modismos na percepção das pessoas”, finaliza Costa.