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Percepção, verdade e interesses

Gerson Gerloff/Pulsar Imagens

Queimada em Corumbá/MS. Incêndios em 2017

A respeito das queimadas no Pantanal e na Amazônia, precisamos que nossos ministérios falem a mesma língua, ao contrário do que ocorreu recentemente quando a área diplomática defendeu a extensão da importação de etanol dos Estados Unidos contra a posição da Agricultura, enquanto nossos estoques estão muito altos.

Por Ciro Rosolem*

Já recebi piadas pelo WhatsApp eliminando o ano de 2020, dizendo que não teria servido para nada! Não concordo. O ano começou com esperança e alta expectativa, mas…

Apesar do desempenho maravilhoso do setor agrícola, o ano tem sido emocionante, para o bem e para o mal. Começou lá atrás, com a aprovação do Acordo de Comércio Europa-Mercosul.

Sabíamos que não seria fácil. Bom, e o que tem a ver? Tem a ver que todo barulho que os europeus vêm fazendo, liderados por França e Alemanha, que culminou com carta ao nosso Vice-Presidente cobrando “ações reais imediatas” contra o desmatamento, com ameaça de pararem com investimentos no Brasil e compras de nossos produtos, no fundo no fundo, não se refere a ambiente. Refere-se à proteção dos produtores rurais deles, altamente subsidiados, e fortes lobistas. Essa é a verdade, ou pelo menos, boa parte dela. Mas, quem liga para verdade?

Numa perspectiva histórica, considerando-se o clima e onde o desmatamento e o fogo na Amazônia estão ocorrendo, o panorama não é tão grave quanto aparece nas fotos de jornais. Tivemos então o azar de um ano extremamente seco, com temperaturas acima do normal. E então o fogo. Inclusive no Pantanal. Por incrível que pareça, em alguns locais a preservação ambiental vem alimentando os incêndios. Sim, a preservação resulta em maior massa vegetal que, seca, é excelente combustível. Morrem animais silvestres, e morre o gado, isso sim uma tragédia. Então o atual governo diz que o “desmonte” da fiscalização vem do desgoverno anterior, e os adeptos do governo anterior inundam as mídias denunciando o desgoverno atual. Na verdade, nem tanto cá, nem tanto lá.

Talvez tudo isso nos sirva de lição, aprendizado para o futuro. O jogo econômico é pesado, mas não é prático só se lamentar e dizer que fizemos quase tudo direito, que temos a legislação ambiental mais restritiva do mundo, que preservamos mais florestas que todos. De novo, verdade. Mas, quem se preocupa com a verdade?

Como se trata de percepções, política e uso sem critério de informações parciais, o jogo é muito complexo. Precisamos de um time que, primeiro estabeleça uma defesa forte, e depois estruture um ataque eficaz. Me parece um bom começo a união de organizações ambientalistas e representantes do agronegócio na Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, que acaba de fazer recomendações consensuais ao governo. Trata-se agora de seguir suas recomendações, e alardear pelo mundo sua existência e atitudes.

O setor produtivo está ciente e atento. Mas as forças opostas são poderosas, e “pega bem pôr a culpa nos outros”. Vai ser muito difícil, mas é um começo. Então, há um jogo da verdade, mas há um jogo político e econômico. Ambos precisam ser bem jogados. Precisamos agora que nossos ministérios falem a mesma língua, ao contrário do que ocorreu recentemente quando a área diplomática defendeu a extensão da importação de etanol dos Estados Unidos contra a posição da Agricultura, enquanto nossos estoques estão muito altos. Mas, isso é assunto para outra hora.

* vice-Presidente de Comunicação do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS) e Professor Titular da Faculdade de Ciências Agrícolas da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (FCA/Unesp Botucatu).