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“Nós temos de saber aproveitar nossos cérebros”

O apelo é da profª Leila Macedo Oda, que vê a falta de fomento e de marcos regulatórios como grandes entraves da Ciência no País

Química Ph.D em Microbiologia e Imunologia, a pesquisadora acumula passagem pelo International Centre for Genetic Engineering and Biotechnology em Triste, na Itália; pela Fundação Oswaldo Cruz, atuando em controle de qualidade e segurança internacional e protocolo de biossegurança, onde também foi professora na Escola de Saúde Pública. Foi a primeira mulher a presidir a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), de 1999 a 2001, e exerceu papel fundamental na Lei de Biossegurança no País. Recebeu este ano o Prêmio Norman Boulaug Sustentabilidade 2018.
Aqui, ela fala um pouco sobre sua carreira, o papel da mulher e como gostaria que a Ciência fosse tratada no Brasil.

CenárioAgro (CA) Como é que a senhora enxerga a Ciência no Brasil hoje?

R (LO) – O Brasil tem uma potência muito grande em termos de competência de Recursos Humanos. Não é à toa que nós tivemos à frente da Revista Nature, da Science, com o sequenciamento da Xylella (bactéria responsável pela ocorrência do amarelinho e de outras doenças), que mostrou a competência do Brasil em termos internacionais.
Hoje o que eu vejo como um problema é a falta de continuidade nos programas de incentivo à pesquisa e a burocracia que diz respeito a marcos regulatórios, que nos impede de estarmos muito mais avançados.

(CA) Sobre o papel da mulher na Ciência – de que forma podemos tomar posse deste lugar, que como tantos outros, ainda é predominantemente dominado por homens?

R (LO) – Nós estamos conquistando espaços pouco a pouco graças à meritocracia. As mulheres têm um dinamismo muito grande. Ao mesmo tempo em que se responsabiliza pelas tarefas domésticas, criação de filhos, consegue avançar em seu desejo de desenvolver, de fazer uma pesquisa, mas ainda são muito poucas que conseguem isso; acabamos tendo pouca representatividade na Ciência por conta desse contexto. Mas não acho que aja impeditivo sob o ponto de vista da carreira em Ciência. O que falta é um investimento maior da própria mulher em sua carreira; muitas vezes ela tem de abrir mão de questões pessoais. O que é importante é que haja uma divisão de tarefas em casa para que ambos, homem e mulher, possam se dedicar cada um à sua profissão. Mas, infelizmente, a gente ainda está muito aquém do que é ideal.

(CA) A senhora dedicou sua vida ao estudo da biotecnologia e teve papel fundamental na Lei de Biossegurança no País. Por que, em sua opinião, mesmo após tantos anos, os transgênicos ainda são polêmicos? Por que o uso da biotecnologia não é questionado pela população quando se trata da indústria farmacêutica, por exemplo?

R (LO) – A biotecnologia é muito complexa e a sociedade, de modo geral, não se apercebe da relevância desses produtos quando se fala em produção agrícola, a medida que os produtores enxergam essa importância porque com ela, eles têm produtividade, eles usam menos água, menos insumos etc; ele adota a tecnologia tranquilamente porque vê vantagens.
A sociedade enxerga esse benefício quando precisa usar um medicamento, uma insulina, que é produzida pela biotecnologia, porque é um risco, às vezes, entre viver e morrer. No caso de uma vacina desenvolvida pela biotecnologia, se ela não toma, corre um risco maior. Então, para a sociedade, em casos assim, ela nem questiona qual foi a tecnologia usada para o desenvolvimento desses produtos porque quer a cura. Mas no caso dos transgênicos na agricultura, ela não vê claramente uma vantagem. Em produtos de segunda ou terceira geração, como uma batata que oxida mais lentamente, que é resistente a um vírus, não apodrece com tanta facilidade, fica mais fácil convencer as pessoas a respeito dos benefícios.
Como é que você vai convencer a sociedade que aquele produto é tão ou mais seguro do que o convencional? Explicar isso de maneira acessível é complicado e, por isso, acaba gerando resistência.

Aliado a este fato, tem toda questão ideológica que a gente sabe que existe, que foi o que gerou todo o processo de moratória dos transgênicos no Brasil, de grupos que adotaram como bandeira “diga não aos transgênicos”, sem qualquer embasamento científico, e de cunho difamatório.

É preciso fazer o fortalecimento de programas de informação científica junto a setores que realizam treinamentos, próximos à sociedade, a comunidades, para que haja desmitificação em relação aos transgênicos.

(CA) Esse descompasso entre a Ciência e a sua percepção, não se deve também ao fato de os cientistas estarem longe das pessoas?

R (LO) – O grupo contrário à tecnologia dos transgênicos vivem disso, enquanto os cientistas precisam desenvolver seus trabalhos, mal têm tempo de dar uma entrevista, têm prazos, entregas de relatórios, cobrança muito grande… são poucos os que conseguem fazer algum trabalho de informação direta com a população.

Eu, com o trabalho nas Olimpíadas de Biologia, pude iniciar uma divulgação do que é a transgenia e quebrar um pouco dessa resistência. Depois que me aposentei, também comecei um trabalho de divulgação científica com uma ONG aqui de Maricá, a Rosa Choque, que faz um trabalho de reciclagem de professores nas escolas. Então, tenho procurado fazer esse tipo de trabalho, que é muito importante para que as pessoas saibam, dizer com propriedade o que é bom e o que não é; e de não se deixar levar por tantas questões ideológicas que são colocadas.

Para fazer uma popularização da biotecnologia, é preciso que haja um trabalho contínuo de informação mais direta; mostrar, por exemplo, que se não fizermos uso da biotecnologia o cacau pode ser extinto e, consequentemente, o chocolate não será mais produzido, antes de falar em cacau transgênico. As pessoas têm de entender a importância do uso da tecnologia.

(CA) A senhora foi a primeira mulher a presidir a CTNBio. O que isso representou e quais são suas maiores e melhores lembranças dessa época?

R (LO) – Presidi por dois anos (de 1999 a 2001) e decidi não continuar por motivos pessoais. Esse tempo na CTNBio representou uma possibilidade de colocar todo o conhecimento que eu tinha acumulado em biossegurança… quando eu comecei a estudar biossegurança na FioCruz, ela era uma ferramenta de trabalho e depois passou a ser o objeto da minha pesquisa e aí quando surgiu a lei, e todo o processo que a envolveu, do projeto à publicação, eu vi uma forma de contribuir com a sociedade. Eu vinha de uma trajetória, tanto na Europa como nos Estados Unidos, que me permitiu introduzir processos aqui que ainda não existiam e o que acho que foi bastante importante nesta época é que a CTNBio é multidisciplinar. Então, a troca de conhecimento ali é grande e agrega muito profissionalmente.

(CA) Como cientista, o que gostaria de ver aqui no País?

R (LO) – Eu gostaria que os cientistas fossem aproveitados pelo País. Muitas vezes, eles não encontram aqui uma ressonância de políticas que façam com que possam desempenhar todo seu potencial.

Nós vemos muito isso na Ásia, em países como Singapura, Japão – eles investem muito em pessoas que usam o cérebro, que são pagas só para pensar. Pessoas que se isolam para pensar, pesquisar, estudar e saem de seus laboratórios com projetos inovadores, com soluções e isso é incorporado pelo país.

Quando eu estive em Singapura, eu fiquei impressionada com o que eles disseram pra gente – vocês exportam produtos, nós exportamos cérebro. Isso mostra claramente uma diferença de postura.
Não estou dizendo que a vocação do Brasil para a agricultura não seja importante, mas nós também temos de saber aproveitar os nossos cérebros. Hoje, grande parte desses cérebros estão migrando para o exterior. Eu gostaria muito de ver um Brasil que dá o tom da ciência mundial.

(CA) Em sua trajetória como cientista, há algo que gostaria de ter feito e não conseguiu?

R (LO) – Eu comecei a minha vida de pesquisa na área da saúde e participei de um projeto de desenvolvimento de vacina para a Doença de Chagas e pensava “como é que eu posso contribuir para o meu país?” e isto seria uma grande possibilidade. Mas a vida vai te encaminhando para outras direções, acabei ficando responsável pelo setor de vacinas na FioCruz e não pude continuar. Então, acho que esse foi um sonho que não realizei.