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Ninhos de harpia são encontrados na RPPN da Veracel, no sul da Bahia

Jailson Souza

A ave, que sofre ameaça de extinção, encontrou refúgio e procriou em reserva da empresa de celulose, que completa 20 anos em 2018 e fica em plena mata atlântica. No local, também foram encontrados vestígios de onça pintada

Jailson Souza

Dois ninhos de harpia (Harpia harpyja), ave também conhecida como gavião-real, foram encontrados recentemente na RPPN Estação Veracel, que ocupa uma área que abrange os municípios de Porto Seguro e Cabrália, no sul da Bahia. O feito é para se comemorar, porque, apesar do seu tamanho e força, a harpia faz parte da Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação (UICN), onde é classificada como Quase Ameaçada. Além disso, há poucos registros de sua presença no bioma mata atlântica, estando mais presente na Amazônia e no Cerrado.

 “Trata-se de uma ave extremamente rara na mata atlântica”, explica a bióloga Virgínia Camargos, coordenadora da RPPN Estação Veracel, comemorando a descoberta dos ninhos. “Encontrar esses ninhos tem um enorme significado para nós, porque é o resultado de todo um trabalho de preservação feito ao longo dos 20 anos da Estação Veracel”, diz.

 A Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) da Veracel – empresa de celulose formada pela brasileira Fibria e pela suecofinlandesa Stora Enso – foi criada em 1996 e reconhecida por portaria governamental dois anos mais tarde, completando 20 anos de existência oficial em 2018. Ocupa 6.069 hectares de floresta em estágio quase primário, segundo Virgínia, em uma região em que a mata atlântica é muito fragmentada. “Trabalhamos para fortalecer a conexão do corredor da reserva da Veracel com o Parque Nacional  do Pau-Brasil, que tem 19 mil hectares”, conta.

Na reserva da Veracel, funcionava inicialmente um centro de reabilitação de animais, que um dia recebeu uma harpia resgatada do tráfico ilegal de aves. “Ninguém sabia como lidar com a harpia e surgiu a ideia de tentar reabilitá-la para que retornasse à vida silvestre”, conta Virgínia.

Mas a soltura não é tão simples assim e envolve uma série de estudos e ações. Especialmente no caso da harpia, que necessita de uma área de 50 km quadrados para viver, no caso florestas tropicais. Trata-se da maior ave de rapina do Brasil: do bico à cauda mede quase um metro, sendo que quando suas asas estão abertas, a distância entre suas pontas pode chegar a dois metros.

Inventário

Assim, foi realizado um inventário do fragmento florestal da região, para saber se ele suportaria a presença da harpia, espécie que ocupa o topo da cadeia alimentar das nossas florestas, predando animais como macacos, preguiças, répteis e aves de menor porte. Como o resultado foi positivo, teve início o projeto de reabilitação da ave.

A iniciativa foi batizada de Projeto Harpia na Mata Atlântica, desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) em parceria com a Estação Veracel, e que até agora já reabilitou três harpias, devolvidas posteriormente à natureza. Após sua soltura, as aves passaram a ser monitoradas por telemetria de satélite.

No início deste ano, funcionários da Estação Veracel começaram a escutar e até a avistar uma harpia, mas não tinham como afirmar que se tratava de uma das libertadas pelo Projeto. Em março, ao examinar as imagens das câmeras fotográficas (camera traps) instaladas nas copas das árvores, puderam ver a majestosa ave tomando banho em uma poça d’água.  

Tânia Sanaiotti, bióloga  do INPA e uma das responsáveis pelo Projeto Harpia na região, foi chamada, e constatou a presença de um ninho com um filhote. Pouco tempo depois, outro ninho, também com um filhote de quatro a cinco meses, foi encontrado.

Os filhotes estão sendo monitorados por meio de câmeras fotográficas e suas penas estão sendo coletadas no solo, embaixo dos ninhos, para posterior identificação genética dos indivíduos e do parentesco, para saber se são filhos das aves reabilitadas e soltas na reserva.  

 Onça

E os achados não pararam aí. Em 2017, houve registros, pelas câmeras, da presença de uma onça pintada na área da reserva, fato que não ocorria há mais de vinte anos. A onça, que como a harpia, ocupa o topo da cadeia alimentar da natureza, também se encontra bastante ameaçada, fruto do avanço da fronteira agrícola, da perda de habitat e da caça.

 Agora, estão sendo instaladas mais câmeras, pelo ICMBio em parceria com a Veracel, para monitorar a presença do mamífero. “O registro das harpias e das onças é muito gratificante. Manter animais do topo de cadeia é sinal de que a floresta está viva e consegue manter esses animais”, diz Virginia.

Foto: Jaílson Souza/Divulgação Veracel