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Fazenda produz mangas em sistema biodinâmico no sertão da Paraíba

Cristina Rappa

Integração com bovinos, caprinos, ovinos, apicultura e fabricação de spirulina – sem falar no ambiente altamente preservado da RPPN vizinha às atividades – favorece a produção de frutas de qualidade, para atender ao exigente mercado europeu

Cristina Rappa para Coalizão Verde (1Papo Reto, CenárioAgro e NeoMondo)*

Cristina Rappa

Esqueça aquela imagem da caatinga seca, onde nada se produz e os animais morrem de fome e sede, recorrente em filmes e em obras de escritores como Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz. É certo que as secas ainda castigam muito a região semiárida do nordeste brasileiro, mas experiências mostram que é possível produzir alimentos de alta qualidade no bioma, dando emprego e renda à região.

Vacas da raça pardo-suíça na ordenha

É o caso da Fazenda Tamanduá, localizada no município paraibano de Santa Teresinha, com área abrangendo também o vizinho Patos, a 320 km da capital, João Pessoa. Com pouco mais de 3 mil hectares – sendo 614 ha de reserva legal e 350 ha ocupados por uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), ou seja, área sem nenhuma interferência – a fazenda tem como atividades a fruticultura, com destaque para a produção de mangas em sistema biodinâmico; criação de bovinos da raça versátil e rústica Pardo-Suíça, caprinos da raça Parda-Alpina, e ovinos resultados do cruzamento de Dorper com Santa Inês, para produção de carne, leite e queijos orgânicos; apicultura e produção de spirulina, para suplementação humana e animal.

Todas essas atividades mantêm a fazenda e dão trabalho às 35 famílias que nela moram, sendo que a colheita da manga emprega mais 80 pessoas durante pelo menos quatro meses.

Com pluviosidade média de 700 mm por ano, sendo as chuvas concentradas em 2 a 4 meses, e temperaturas variando entre 20,8 e 33O C, a Tamanduá tem como carro-chefe a produção de mangas das variedades Tommy Atkins e Keitt, para exportação. O pomar, de 3,5 mil árvores, devendo chegar a 4 mil em breve, ocupa 30 ha, e segue a seguinte proporção: 70% de Tommy e 30% de Keitt.

O manejo biodinâmico – que entende a fazenda como um organismo agrícola em que todos os setores e insumos são integrados e alinhados ao ritmo da natureza e dos astros – aliado à condição climática do local, permite a obtenção de um grau brix alto, de 21, o que favorece muito a qualidade das frutas para exportação.

“O importador precisa acompanhar a produção para comprovar que não adicionamos açúcar às frutas”, conta o engenheiro agrônomo Flávio Alves de Medeiros,  gerente de produção da Tamanduá. Para efeito de comparação, as mangas produzidas em Petrolina/PE, às margens do rio São Francisco, costumam ser colhidas com um grau brix de 16.

Outra vantagem do brix alto é o aumento da “shelf life” – ou tempo de prateleira – das frutas no pós-colheita, já que elas levam de 11 a 15 dias da fazenda até Roterdam, na Holanda, seu porto de entrada na Europa. Durante o pós-colheita as frutas são acondicionadas a uma temperatura de 10o C e ventilação de 85%, e ainda chegam com tempo de prateleira suficiente para serem comercializadas no exigente mercado europeu.

Integração

As árvores foram plantadas em espaçamento de 10 x 10 m, que está sendo reduzido para 10 x 5 m. Como o sistema é integrado, a criação de abelhas contribui para a produtividade com a polinização. O resíduo de limpeza do laticínio e o soro da fábrica de queijos, rico em sais minerais, somam-se ao esterco dos rebanhos caprino e bovino na adubação do pomar.

Tanques de microalgas, para spirulina

A spirulina, suplemento à base de microalgas, rica em proteínas e sais minerais, e produzida em tanques ao ar livre, reforça a alimentação do gado, aumentando sua resistência, e ainda é empregada na cura de algumas doenças dos animais, assim como fertilizante para as mangas. Não bastassem esses benefícios, tem se mostrado uma atividade lucrativa e vendida na forma de comprimidos, cápsulas e pó.

Entre as práticas agrícolas no pomar, adubação no início da estação chuvosa, em dezembro, e podas de formação e pré-floração. As plantas ainda recebem biofertilizante para induzir a floração e preparados biodinâmicos, no início das chuvas, para auxiliar a maturação dos frutos.

O clima seco tem suas vantagens, como a inexistência de doenças fúngicas, como a antracnose, e de mosca-das-frutas. Caso alguma praga seja detectada, é empregado o controle biológico com seus inimigos naturais.

Com poda e irrigação, tenta-se harmonizar os galhos e que a florada seja homogênea. A irrigação, iniciada assim que começa o período seco, em junho, é feita por gotejamento, sistema mais racional, que evita desperdício de água, um bem valiosíssimo, ainda mais no semiárido. Cada árvore consome em média 200 litros de água por dia.

Como a água vem de poços tubulares com cerca de 60 m de profundidade, e de açudes, para prevenir o entupimento dos tubos, é adotado um sistema de magnetização em que as partículas de sais se desdobram em partículas menores.

O gerente Medeiros no pomar da Keitt

A Tommy tem florada mais precoce, com colheita de início de outubro a final de dezembro. Em novembro, tem início a colheita da Keitt, indo até janeiro. Na primeira colheita, são tiradas 60% das frutas; depois ocorrem mais duas, menores. No total, são colhidas de 15 a 20 toneladas de frutas por hectare.

A colheita carece de cuidados, para não danificar as frutas, que poderiam ser rejeitadas pelo comprador. É preciso cortar com cuidado o pedúnculo e escorrer o látex, para que não danifique a casca. Além disso, as caixas não podem ficar muito cheias, para não amassar e machucar as frutas que ficam no fundo. Para isso, os colhedores são bem treinados.

Uma vez no packing house, as frutas são lavadas com água potável, secas, polidas, classificadas e embaladas. As caixas, com 4 a 4,3 kg de fruta, são acondicionadas em pallets e vão para a câmara fria, onde ficam a 10o C. De lá, seguem em carreta refrigerada aos portos de Natal/RN ou Pecem/CE, de onde partem de navio para a Europa.

As frutas que não passam no teste de qualidade visual para a exportação in natura para o continente europeu viram polpa, a ser comercializada, pasteurizada e congelada, no mercado norte-americano. Para otimizar a fábrica de polpas na entressafra da manga, a Tamanduá avalia outras frutas regionais, como o umbu-cajá, adianta Medeiros.

As amêndoas das mangas, na produção de polpas, são processadas para a produção de óleo e a casca enriquece a alimentação dos rebanhos. “Aqui, nada se perde”, assegura o agrônomo, um apaixonado defensor do sistema biodinâmico.

“O manejo convencional caminha para a degradação do solo e das plantas. Os sistemas orgânico e biodinâmico ativam e favorecem a biologia do solo”, defende o gerente, explicando que, nesses sistemas, os tratos culturais são mais trabalhosos e a colheita é parcelada (uma vez que as mangas vão florescendo e amadurecendo irregularmente), mas que a escolha compensa: “ganhamos na vida útil do pomar, de pelo menos 20 anos, e na qualidade da fruta”. Sem falar no preço, 20% superior ao das frutas convencionais.

Sonho

Vista da RPPN do alto da Serra do Tamanduá, em um lindo por-do-sol na caatinga

O interesse pela caatinga brasileira levou o suíço Pierre Landolt a procurar uma propriedade para comprar no semiárido brasileiro na década de 1970. “Minha busca terminou em 1977, quando encontrei uma grande e bonita área, com ricos baixos, tabuleiros fartos e muitas áreas preservadas”, conta o visionário e entusiasmado empresário, falando de seu sonho de encontrar um ambiente castigado e que pudesse, com tecnologia adequada, produzir de forma equilibrada, conservando o ambiente. Nascia desse sonho a Tamanduá.

Landolt divide a cronologia das atividades em etapas que ele chama de “reinvenções da fazenda”. A primeira delas ocorreu em 1984, quando desistiu do cultivo de algodão arbóreo de fibra longa e adotou a criação de gado e o cultivo de frutas e cereais. A segunda veio em 1999, com a opção pelo cultivo orgânico e biodinâmico, com auditagem e certificações pelo IBD. A certificação dos produtos orgânicos começou nesse ano; a biodinâmica, um pouco mais tarde: em 2002.

Pierre Landolt na casa que virou museu

A RPPN, de 350 ha, é a maior do alto sertão paraibano e no local são proibidos a caça, a pesca e o corte da madeira, e mantidas atividades de pesquisa de longo prazo. Entre os projetos, a reintrodução do mamífero de pequeno porte mocó (Kerodon rupestres), que havia sido caçado até a extinção; o levantamento da população de morcegos, animal que participa fortemente da polinização das flores das mangueiras (o local reúne 28 das 77 espécies encontradas na caatinga); o levantamento de aves, mamíferos, anfíbios, répteis e quelônios; além da soltura monitorada de aves apreendidas do tráfico e para lá encaminhadas pelo Ibama.

Cristina Rappa

Picapauzinho-anão

Vislumbrando um crescente interesse pelo ecoturismo e pela observação de aves, Landolt já se estrutura para oferecer a atividade de birdwatching na fazenda. Pela beleza do lugar e número de espécies de aves já lá registradas – 199, das quais do descobrimento das duas últimas,  o beija-flor-vermelho (Chrysolampis mosquitus) e a marreca-toucinho (Anas bahamensis), esta repórter teve a felicidade de participar – deve ter sucesso.

História e microcrédito

Atento à importância do resgate e da preservação da história, Landolt mantém uma antiga casa de taipa – ou pau-a-pique – dos anos 1920 como museu. Isso porque, para prevenir surtos da doença de Chagas, esse tipo de construção, propício à presença do barbeiro, seu inseto-vetor, teve que ser abandonado e substituído pela alvenaria.

Atuante na sociedade e economia locais, o empresário e produtor rural ainda investe em uma agência de microcrédito com sede na cidade de Patos. “Essa é a única opção para o pequeno profissional liberal conseguir algum recurso para investir na abertura de um negócio e não cair na mão de agiotas, que cobram juros exorbitantes”, explica.

*a jornalista viajou a Santa Teresinha/PB, a convite da Fazenda Tamanduá.

Fotos: Cristina Rappa/Crível Comunicação.