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Educação é arma para reduzir risco de entrada de novas pragas

Os jogos olímpicos tiveram início na sexta-feira (05) e devem levar ao Rio de Janeiro cerca de um milhão de turistas até o seu término, em 21 de agosto. Mas nem tudo é festa e, junto com os turistas, chegam visitantes incômodos, como as pragas agrícolas.

Para a bióloga Regina Sugayama, mestre e doutora pela Universidade de São Paulo (USP), especialista em defesa agropecuária, o risco de entrada de novas pragas no país, em um mundo globalizado, “é permanente”. Para ela, investir na conscientização da população para o problema é importante para a sustentabilidade da nossa agricultura, que já leva pódio em vários quesitos. Nesta entrevista ao CenárioAgro, Regina dá ainda conselhos de como o agricultor pode proteger sua lavoura.

Regina Sugayama

Pragas exóticas podem chegar nas frutas trazidas na bagagem. Foto: Regina Sugayama

Como começou o interesse e o trabalho da senhora com pragas e defesa agropecuária?

Já na graduação, iniciei trabalho com moscas-das-frutas e tive o primeiro contato com assuntos ligados à quarentena e aos impactos que as pragas têm sobre o comércio internacional de frutas. No Rio Grade do Sul, trabalhei com pragas de frutas temperadas durante 11 anos e, agora, em Minas Gerais, onde moro, atuo na consultoria em Defesa Agropecuária.

Na época da Copa do Mundo no Brasil, em 2014, a senhora e a Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef) alertaram para o risco de entrada de pragas agrícolas no Brasil. Houve uma praga emblemática que teria vindo com a Copa e quais os seus danos em termos de prejuízos financeiros ou queda de produtividade?

Os processos de invasão são lentos e há todo um rito que deve ser seguido para comunicar a ocorrência de uma nova praga no país, que passa por um sério trabalho de pesquisa, pela anuência do MAPA para publicação do registro e da tramitação de um artigo científico. Portanto, de 2014 para cá, não deu tempo ainda de sabermos o que entrou durante a Copa. O que nós esperamos é aumentar o nível de conscientização do brasileiro para a importância que a sanidade vegetal tem para a sociedade como um todo. Nós, da consultoria Oxya, o pessoal da Andef e da Sociedade Brasileira de Defesa Agropecuária -SBDA entendemos que não há sustentabilidade na agricultura sem sanidade e que preservar este patrimônio está nas mãos de cada cidadão.

Agora, com as Olimpíadas, o risco está de volta? Se sim, qual a ameaça, ou seja, quantas pragas podem entrar no país?

O risco é permanente. Nós, brasileiros, viajamos como nunca antes na história do país e recebemos turistas também em números sem precedentes, tanto nos grandes eventos esportivos, culturais, religiosos, como também turistas. O número de pragas que podem entrar é imenso. O Brasil reconhece centenas de espécies como pragas quarentenárias ausentes, ou seja, pragas que, até onde se saiba, não ocorrem em nosso território, mas que, caso entrem, têm potencial para causar danos elevados.

André Berlink

Regina Sugayama: “Com educação, mudamos comportamentos”

Qual o país que “exportaria” mais pragas que podem ameaçar a nossa agricultura?

Considerando a lista de pragas quarentenárias ausentes, os EUA.

Mesmo o Rio de Janeiro, sede dos jogos olímpicos, não sendo um Estado com agricultura forte, o risco existe?

Sim, existe. É comum que as pragas iniciem sua invasão por áreas urbanas. Isso porque na área urbana, as plantas não estão sujeitas a controle de nenhuma natureza. 

Qual a recomendação para evitar a entrada de novas pragas? O que as autoridades do Ministério da Agricultura, o MAPA, têm feito ou recomendado?

O MAPA tem um sistema estruturado de vigilância internacional e os órgãos estaduais vinculados às Secretarias de Agricultura, de vigilância interestadual. Uma inovação recente do MAPA foi o treinamento de um cachorro para identificar bagagens que contenham produtos agropecuários. Mas o principal é a conscientização.

Há 20 anos, a gente não falava em educação ambiental. Há 20 anos, a gente dirigia sem cinto de segurança. Foi somente através da educação que mudamos muitos comportamentos e já passou da hora do Brasil compreender que a Educação Sanitária é uma política que precisa ser incentivada.

Sempre conto nas palestras um ‘causo’ da minha avó. Num almoço, ela me ofereceu maçã e pera lindas. Perguntei onde ela tinha comprado e ela me contou que tinha ganhado de uma amiga dela que foi para o Japão e que trouxe uma caixa de cada fruta de lá. Imagina, uma caixa! A gente precisa acabar com essa história de que pode trazer porque não vai ser ‘pego’. Afinal, uma praga que entre no país vai aumentar o preço da comida que chega no supermercado e aí quem vai pagar a conta é você mesmo.

Arquivo Regina Sugayama

Avó de Regina exibe frutas que ganhou

Independentemente de eventos como esses  – Copa e Olimpíadas – com o mundo globalizado e o trânsito cada vez mais frequente de pessoas entre os países, o risco parece ser constante. Como a agricultura brasileira pode se proteger?

O produtor de frutas está mais avançado nesse sentido. Ele faz monitoramento de pragas, está presente no pomar. Já os produtores de grandes culturas, até mesmo pela extensão da área, acaba não tendo como estar tão presente. Então, eu tenho a impressão de que quando uma praga de frutas entra no país, ainda dá tempo de fazer alguma coisa. Se você olhar a lista de pragas quarentenárias presentes para o Brasil, vai ver que, de 15 espécies, 13 são pragas de frutas. Estas são espécies que entraram no país mas que estão sob controle oficial, ou seja, o MAPA e os órgãos estaduais estão empreendendo todos os esforços necessários para evitar que elas se disseminem. Exemplos: sigatoka negra, pinta preta, HLB, cancro da videira.

Evitar o trânsito de maquinário potencialmente contaminado entre propriedades ou regiões também ajuda. Utilizar somente material de propagação fiscalizado, trabalhar com uma postura mais estratégica e menos reativa, incorporar ferramentas computacionais para identificar ameaças e alinhar esforços com o setor privado também são  contribuiriam.