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Criado solto

Por Sílvia Sibalde para COALIZÃO VERDE (1Papo Reto, CenárioAgro e Neo Mondo)

Como está o Brasil em relação à produção de ovos sob o sistema livre de gaiolas e ao uso de celas de gestão para carne suína

Já não é novidade que o acesso à informação tem formado consumidores cada vez mais atentos e exigentes em relação à sustentabilidade do que consomem. De olho nessa tendência mundial, alguns setores da cadeia de produção de alimentos vêm trabalhando na transição para uma realidade com maiores níveis de bem-estar animal, de maior qualificação e tecnificação da mão-de-obra, melhor interação homem-animal, e claro, consequentemente maior qualidade também de seu produto final.

“Além de todos os aspectos relativos ao meio ambiente, à sanidade e ao bem-estar do animal, produtores têm enxergado isso como uma oportunidade”, diz Murilo Quintiliano, CEO da FAI Farms do Brasil. “Tanto é verdade, que há dois anos 99% da cadeia de produção de ovos no Brasil, por exemplo, era proveniente do sistema convencional de gaiolas. Hoje, o sistema livre de gaiolas, que é uma alternativa a isso, corresponde a 5%”, completa.

Embora seja ainda uma fatia muito pequena desse universo, representantes do setor acreditam em um crescimento cada vez mais robusto da produção de ovos sob o sistema livre de gaiolas. De acordo com Rui Lopes, diretor-adjunto da Rede Britânica de Ciência e Inovação no Brasil, a segunda edição do Encontro do Movimento Corporativo Livre de Gaiolas na Produção de Ovos no Brasil é prova disso. “Fiquei impressionado com o poder de convocatória do evento, que reuniu produtores e grandes empresas do varejo. Há um grande interesse nisso e não há discussão a respeito do mérito do sistema, mas de como fazer”, diz. “Aqui no Brasil há um grande vácuo em relação à legislação e à regulamentação disso. Trabalhar sob o sistema livre de gaiolas é uma iniciativa e um apetite do setor privado, que está se organizando para entender e se engajar”, explica Lopes.

O Encontro, realizado na última semana (24), em Jaboticabal/SP, teve como premissa discutir as iniciativas do Brasil e do Reino Unido em sustentabilidade na produção de alimentos e responsabilidade social corporativa na transição para cadeias com maiores níveis de bem-estar animal, como a de ovos livres de gaiolas. “O que a HSI (Humane Society International) já conseguiu aqui no Brasil foi um compromisso de mais de 90 empresas em eliminar de suas cadeias de abastecimento ovos vindos de galinhas mantidas em gaiolas e de carne suína onde celas de gestação são usadas”, informa Quintiliano. “Algumas empresas se comprometeram em fazer a mudança até 2020 e outras até 2025. Esses são compromissos reais. O que discutimos agora são questões técnicas, mercadológicas e sociais, para entender de que maneira isso vai acontecer e com que velocidade”, diz.

Brasil e o mundo

No Brasil, a produção de ovos encontra-se bastante pulverizada hoje. “Temos produção em São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás, em estados do Nordeste e também do Sul. O município de Bastos, em São Paulo, concentra 30% do total produzido”, diz Quintiliano.

Embora esta transição de produção de ovos mais sustentável seja uma iniciativa do setor privado, fatores como custo de produção são limitantes. “Aqui ainda não conseguimos medir quão mais custoso para o produtor o sistema seria. Mas, posso dizer que é menor do que pensam ou dizem”, assegura o CEO da FAI Farms do Brasil. “Dados da produção francesa, por exemplo, mostram que dependendo da eficiência da propriedade, este aumento de custo gira em torno de 25% a 30%”, diz.

A experiência americana, mostra no entanto, que produtores ganham bônus por ovos produzidos sem gaiolas. Uma pesquisa feita por uma rede de varejo em 15 cidades dos Estados Unidos, em abril de 2008, indicou um preço médio de varejo de US$ 3,07 por dúzia de ovos grandes marrom tipo A, versus US$ 3,59 por dúzia dos produzidos sem gaiolas (não orgânicos) – um ganho de 17% no preço final.

Alguns compromissos já assumidos

Em 2007, a rede de restaurantes Burger King anunciou que reduziria gradativamente os produtos oriundos de gaiolas em todas as suas franquias na América do Norte. Também passou a dar preferência aos produtos suínos que não confinam suas porcas reprodutoras em celas de gestação.

A União Europeia aprovou lei nos anos 1990 que proibiu gaiolas desde 2012 e celas de gestação, em 2013.

Nos Estados Unidos, são sete os estados que sancionaram leis semelhantes. Em 2015, a Califórnia proibiu formas de confinamento que não permitam aos animais deitar-se, levantar-se, virar-se livremente e estender seus membros completamente.

A Mc Donald’s da União Europeia já tinha mais de 95% dos seus ovos produzidos em sistema livre de gaiola em 2008.