Nordeste perde mais de 1 milhão de trabalhadores rurais nos últimos cinco anos
9 de novembro de 2018
A força da mulher é peça-chave para a força do agronegócio brasileiro
13 de novembro de 2018

Alta carga tributária emperra exportação de cachaça

Impostos correspondem a mais de 80% do valor de venda

Assim como a tequila, o pisco, o whisky e o champagne, o destilado que produzimos no Brasil a partir da cana-de-açúcar, a cachaça, só pode ser chamada assim aqui e em qualquer outro lugar do mundo para onde é exportada. Na boca do brasileiro, no entanto, ela ganhou outros nomes – marvada, pinga, mé, branquinha, danada, limpa goela… e muitos outros, que variam de acordo com a região de onde se fala. Mas, ao contrário do champagne, por exemplo, a nossa típica bebida ainda precisa galgar muitos passos para adquirir o status que goza a francesa, símbolo de requinte e celebração. “O que nos falta, e aí falo como governo e cidadãos, é assumir a cachaça como um símbolo nacional para ocupar um lugar de destaque”, diz Carlos Lima, diretor executivo do Instituto Brasileiro da Cachaça (IBRAC). “Além de um trabalho de promoção do produto, necessitamos de uma revisão urgente da carga tributária, que acaba minando recursos financeiros de empresas do setor”, alertou Lima.

Produzida de Norte a Sul, com volume mais expressivo nos estados de São Paulo, Pernambuco, Ceará, Minas Gerais e Paraíba, a cachaça representa 72% do mercado interno, entre os destilados. Apesar de alto, o número não é tão representativo se comparado à cerveja, bebida alcóolica mais consumida entre os brasileiros. Para cada litro de cachaça consumido por aqui, os brasileiros consomem oito de cerveja.

De acordo com o IBRAC, produzimos entre 700 milhões e 800 milhões de litros de cachaça ao ano, mas temos condições de produzir até 1,2 bilhões de litros. Carlos Lima fala que a demanda explica a diferença entre a nossa capacidade de produção e a produção, de fato. “Internamente não temos esta demanda. E o mercado externo, apesar de demandante, não é abastecido como deveria”, diz.

De todo volume produzido, hoje somente cerca de 1% vai para fora. Os impostos hoje correspondem a 81% do valor de venda da cachaça, de acordo com o Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT). “A alta carga tributária é o grande impeditivo. São poucas as empresas que conseguem exportar”, justifica Lima. Para ele, este é o maior problema enfrentado pelo setor, seguido da falta de fiscalização junto aos produtores e aos pontos de venda. “Estes são duas questões que justificam a alta informalidade”, diz. “Necessitamos de recursos e ações mais robustas, nesse sentido”, acrescenta.

Para a Euromonitor Internacional, o crescimento do setor para 2018 deve ser de 0,6%. “Acreditamos que este número deva se manter em 2019. Só teremos um crescimento significativo quando tivermos uma revisão da carga tributária”, acredita o diretor executivo do IBRAC. “Este é um ano de atenção e observação. Mas, claro, sem perdermos a esperança”.

Principais destinos

Segundo o IBRAC, o principal destino histórico da cachaça é a Alemanha, em volume e valor. “No ano passado, os Estados Unidos (17,69%) passaram a Alemanha (17,44%), em valor. Em volume, Paraguai aparece no topo da lista, seguido por Alemanha e Estados Unidos”, informa Lima.

De alguns anos para cá, houve por parte de outros países, o reconhecimento da cachaça como um produto típico brasileiro. Em 2012, na Colômbia, em 2013, nos Estados Unidos e em 2017, no México. Recentemente, também foi assinada uma carta de intenção do Chile, caminhando nesta direção. “Estamos trabalhando na proteção e na promoção da cachaça. Há também este movimento com a União Europeia”, diz.

Manifesto da Cachaça

Em 20 de setembro foi lançado pelo IBRAC, o Manifesto da Cachaça. O documento, assinado pelo setor, traz como principais reivindicações a proteção e a promoção da cachaça; a reavaliação da carga tributária para o produto e a informalidade. “Queremos com este manifesto, conquistar corações e mentes para que a cachaça seja encarada como um produto importante para o País”, diz Carlos Lima.

Além do documento, a entidade também enxerga como necessidade a capacitação da mão de obra de serviço. “Assim como temos para vinho, cerveja e outras bebidas, precisamos ter para a cachaça”, diz Lima. “Está em nosso radar uma parceria com o SENAC para a realização de cursos técnicos de capacitação”, finaliza.

foto – Sergio Ranalli – Pulsar Imagens